11 de agosto de 2014

RESENHA | Sue Monk Kidd – A Invenção das Asas



313 páginas, Paralela 
 
Não sei bem como começar essa resenha. É estranho que quanto mais um livro me toca, mais eu tenho dificuldades em transformar sentimentos em palavras. Com vocês é assim também? 

  Eu não tinha ideia do que era viver em uma sociedade escravocrata. Eu não tinha ideia do que era odiar a escravidão, mas saber que levantar a bandeira a favor da abolição era praticamente uma sentença de morte. Imagine então, em uma sociedade escravocrata e patriarcal, uma mulher defender que todos tem direito a voz, e que independente da cor, somos todos iguais.


   Não era fácil ser contra depois que o sistema estava em pleno
funcionamento. Aqueles que eram contra a escravidão, se calavam por medo das represálias. Poucos ousavam dar cara ao movimento, lutar contra esse período horrível que jamais deveria ter existido.

   Os métodos de tortura iam além do horror das chicotadas. E cada escravo punido durante a narrativa, era um chicote na minha inocência, no meu desconhecimento. Eu tinha um olhar de ingenuidade sobre a escravidão, e talvez por isso eu tenha começado a leitura esperando ação, revolução, grupos se multiplicando contra esse horror que é escravizar outro ser humano, tão vivo e tão merecedor de uma boa vida como os integrantes da elite. Mas não é isso o que acontece. Tudo é lento, tudo demanda planejamentos exaustivos. Lutar demanda cuidado.

   É nesse contexto em que somos apresentados à vida da jovem senhorita Sarah Grimké, que sendo filha de um juiz na corte mais alta da Carolina do Sul, era integrante da elite de Charleston. Sarah tem muitos irmãos, convive com escravos e tem uma mãe implacável. O nome dela é Mary, e como Sarah diz “as coincidências com a mãe do nosso Senhor” acabam aí.

   Sarah é uma menina curiosa, do tipo que pensa além de bonecas, missas, bailes e coisas comuns a meninas da classe dela. Sarah demonstra desde o momento em que a conhecemos 
que o que ela quer é ter voz e direito de escolha. Coisa que naquela época (a história começa na parte um, em 1803) era inadmissível.

“Se você precisa errar, erre pela audácia.” Pág. 14

Sua “audácia” é mostrada em seu aniversár
io de 11 anos, quando ela é presenteada com uma escrava, a Hetty “Encrenca”. (Hetty nos conta que os negros têm um nome dado pelos senhores e seu nome de berço, e o dela era Encrenca.) E Sarah não quer uma escrava, para ela é inadmissível ter um escravo. Um ser-humano é sempre um ser-humano, não? E quando ela ousa dizer isso, enfrentando toda a sua “quase-gagueira” na frente das senhoras da alta sociedade, ela sabe que será punida. E tem medo do que poderá acontecer a Encrenca.

   Durante anos acompanhamos os dois lados de suas histórias, e agora noto que não há capítulos aqui, apenas um livro dividido em seis partes, onde temos a visão ora de Sarah, ora de Encrenca, sobre tudo o que lhes acontece. E que riqueza de história. Há muitos horrores, mas a contextualização feita por Sue Monk Kidd é bastante real, e no geral, também é fiel aos fatos.

(Vale a pena ler as Notas da autora no final do livro, ela explica quem é real nessa história e onde ela usou de sua própria interpretação para compor o enredo e os personagens.).

   E gente, eu fiquei sem fôlego no final do livro. Tranquei a respiração e parecia que só ia soltar quando descobrisse qual seria o final. Emocionante, pra dizer o mínimo.

   Outra coisa que eu esperava quando comecei a leitura é que, pela sinopse, Sarah e Encrenca protagonizariam a dianteira no movimento abolicionista, que elas lutariam juntas e por isso enfatizar tanto o nome delas. Porém, se Sarah é uma asa em busca da liberdade, quem protagoniza a segunda é sua irmã, anos mais nova, Angelina Grimké, ou simplesmente Nina. Nina é o coração dessa história, é ela quem faz o coração de Sarah se libertar e ter coragem para dar voz a si mesma, pois à medida que cresceu a chama de liberdade dentro de Sarah perdeu o vigor.

   Eu criei muita expectativa quanto a relação entre Sarah e Encrenca, que não se concretizou, e isso me deixou um pouco frustrada. Se o livro fosse fiel à sinopse, elas seriam a dupla revolucionária do período. Contudo a relação entre Sarah e Nina revigorou o enredo.

   Nina trouxe a ação que eu ansiava, trouxe a bandeira da esperança, que jamais deixou de empunhar. Nina trouxe voz a própria irmã, e juntas foram as primeiras agentes femininas abolicionistas e umas das primeiras entre as importantes pensadoras feministas americanas.

   “A Invenção das Asas” é um título totalmente adequado, e ao final da narrativa encontramos o seu significado. Sua capa se entrelaça perfeitamente com as histórias que nos são contadas durante o livro. Parabéns ao responsável pela graça e acabamento que agregam ao livro como um todo. A revisão está impecável e as páginas amareladas não cansam a visão. Primeiro livro que leio da Paralela e fiquei muito bem impressionada.

  Sue M. Kidd fez o papel de uma hábil escritora e historiadora incrivelmente competente e empenhada a contar um relato que deixasse claro que o começo das revoluções sempre serão difíceis, mas que quando acreditamos na importância de nossas causas e quando temos alguém para alimentar essa chama, não há dificuldade que faça parar.

   Saio dessa leitura mais consciente do passado e mais certa de que ainda temos inúmeros grilhões para quebrar, até conquistar um futuro onde sejamos livres de verdade, e onde possamos dar voz a todos os corações que tem algo a contar, independente de seu credo, da sua raça e da sua cor.


Se você já leu esse livro, me conta nos comentários se curtiu a leitura ou não. 
E se você ainda não leu, ficou pilhado (a) pela temática?

0 Comments:

Postar um comentário

Sua opinião alimenta minha criatividade, então você pode contribuir para um blog melhor simplesmente comentando :D Para dúvidas, sugestões ou bater um papo, mande e-mail para agarotadalivraria@gmail.com